Ler com Ricardo Reis

Numa altura em que a economia portuguesa e mundial começa a acusar os efeitos da Pandemia do Coronavírus, Ricardo Reis, economista e professor de Economia na London School of Economics fala-nos sobre o seu novo livro Do FMI à Pandemia. À CEO Store, o especialista lembra a crise de 2008, evidencia as diferenças, e arrisca um prognóstico para o futuro. Conheça ainda os livros que marcaram o economista português e os que recomenda para melhores conhecimentos sobre economia.



1 – Quais as semelhanças e diferenças entre a posição de Portugal na crise de 2008 e nesta nova crise?

Uma crise económica faz-se da combinação de: um choque no sistema, das fragilidades desse sistema que permitem que o choque se amplifique e propague pela economia, e de políticas de resposta tendo em conta as limitações do que é possível. O choque que causou a crise de 2007 pelo mundo fora, a crise de 2010 na zona euro, e a crise de 2020 associada com o Covid-19 tiveram três choques muito diferentes. Mas, no caso português, as fragilidades do sistema, por exemplo no que diz respeito aos bancos e à regulação financeira, ou ao intervencionismo do Tribunal constitucional em termos fiscais, são comuns entre as crises. Igualmente, as respostas orçamentais de austeridade adoptadas pelos nossos governos, ou o papel do BCE e da União Europeia têm traços comuns muito vincados durante estas três crises. O que mais me surpreendeu na ligação dos textos entre estas três crises que faço no livro é o fio condutor comum entre eles.

.

2 – Quais as suas prospetivas para a economia Portuguesa no curto/médio prazo?

No curto prazo, a economia vai recuperar nos próximos meses algum do rendimento perdido. No entanto, sobretudo pelo lado dos setores do turismo, transportes, e restauração, essa recuperação vai ser modesta e vai ficar longe de voltar ao nível em que estávamos no início de 2020. De Setembro em diante vamos começar um período de recuperação mais lento, limitado não só pelas novas vagas do vírus, mas sobretudo pelas cicatrizes que a paragem dos últimos meses deixou em muitos setores que vão demorar tempo para sarar. Como explico no meu livro, o ressalto inicial da economia é a parte mais fácil, mas o ritmo da recuperação que se segue depende de alguns factores e políticas chave.

 

3 – Como analisa a atuação dos poderes políticos em Portugal e na União Europeia desde o início da pandemia?

Tendo em conta a dimensão do choque, e a sua novidade, a reação inicial foi bastante boa, com a combinação do sentido de urgência e o aconselhamento com os peritos da saúde. O fecho da economia foi ponderado e executado de forma rápida e eficiente, e é difícil ver como se podiam ter dado mais apoios às pessoas e às empresas. Já no último mês, as decisões tem sido mais discutíveis.

 

4 – Tem um novo livro, Do FMI à Pandemia. Qual a influência que o coronavírus teve na publicação deste livro?

Nos últimos meses escrevi muitos textos na imprensa portuguesa para tentar explicar os efeitos económicos da pandemia, e o que podemos esperar no futuro próximo. Ao fazê-lo, percebi que havia uma ligação clara entre os desafios atuais e os desafios que enfrentamos ainda há dez anos, na véspera de chamar o FMI. Embora a maioria das pessoas ainda se lembre do que aconteceu há dez anos, provavelmente não tem presente esta forte ligação entre os fatores e desafios das duas crises. São tantos os pontos em comum, que achei que a única forma de os realçar seria através deste livro que reúne textos destas diferentes alturas.

 

5 – Quais as 2 ou 3 ideias principais que apresenta no seu novo livro?

Porque é que os bancos são empresas tão especiais, e porque é que os Estados estão tão envolvidos na resolução dos seus problemas? O que determina as taxas de juro da dívida pública, os spreads e os ratings, numa altura em que estamos a pedir emprestados milhares de milhões a um ritmo alucinante? Se vamos ter de cortar na despesa pública, como deve ser estruturada essa austeridade? Podemos olhar para outros países para perceber os custos e benefícios de outras opções de política económica? São os eurobonds, agora, ou em qualquer outra altura, uma boa ideia ou antes uma fantasia que rói por dentro o espírito europeu e bloqueia qualquer verdadeira solução? O livro apresenta respostas a estas, e mais algumas, perguntas, notando que elas se repetem nas diferentes crises porque Portugal passou na última década.

 

6 - Como é que a crise de 2010 preparou Portugal e os portugueses para esta nova crise. E de que formas nos deixou mais vulneráveis?

Depois da euforia das baixas taxas de juro do euro e da estagnação da produtividade durante a primeira década do século XXI, a crise de 2010 tornou bem presente nos portugueses a importância de contas públicas equilibradas, o papel crucial do crescimento económico no bem estar, e a implicação que as boas ou más escolhas de política económica têm. Algumas loucuras que por vezes se ouviam em 2008 ou 2009 foram, felizmente, expulsas do debate público. Ao mesmo tempo, o sistema financeiro ainda não está completamente recuperado da crise de 2010, e a dívida pública continua muito alta. Porque a pandemia teve um impacto imediato no crescimento da dívida pública e privada, vai pôr muita pressão sobre quer as contas públicas, quer as contas da banca nacional.

 

7 – A imagem de Portugal alterou-se desde a crise da dívida soberana?

Por ter feito opções muito diferentes das da Grécia entre 2010 e 2013, Portugal ganhou alguma reputação de responsabilidade e segurança aos olhos do exterior. Em 2020, na reação inicial a crise, novamente a visão de Portugal como uma país seguro reforçou-se. Vamos agora a ver se sobrevive aos próximos meses e ao levantamento das restrições de viagem.

 

8 - Depois deste livro, que outro livro publicará?

Estou a preparar um livro em inglês, para alunos de licenciatura, introduzindo conceitos modernos de macroeconomia e finanças desenvolvidos nos últimos 20 anos de investigação académica, mas que ainda não são ensinados nos cursos de licenciatura.

 

9 - Sabemos que esta pandemia apresenta vários desafios para a economia portuguesa. E quanto a oportunidades?

Se os hábitos de consumo das pessoas se mudarem, ou as cadeia de produção das multinacionais se ajustarem, então algumas das empresas instaladas vão desaparecer, pelo mundo fora. Surge espaço para novas empresas, e novo talento, com oportunidades para desbravarem novo terreno.

 

10 - Mantém-se fiel aos livros em papel ou esta convertido aos novos formatos?

Para livros de não ficção, converti-me ao áudio-livro que ouço nos transportes públicos diariamente. Para a leitura científica e académica, só uso digital, ao ponto de praticamente não ter papel no escritório. Mas, para ler ficção, continuo fiel ao formato de livro em papel tradicional.

 

11 - Pode sugerir um livro que tenha tido um grande impacto no professor?

Saving Capitalism From the Capitalists de Rajan e Zingales. Porque em muitos países, os grandes inimigos do capitalismo e do comércio livre por vezes não são os sindicatos, a extrema esquerda planificadora, ou a extrema direita nacionalista, mas antes os empresários que usam todo o seu esforço para proteger as suas rendas.

 

12 - Que livros está a ler neste momento?

Estou quase a acabar o Teorema Vivo de Cedric Villani, um livro delicioso sobre a aventura da descoberta contado por um matemático. Nos próximos dias começo a biografia Frank Ramsey de Cheryl Misak, sobre um dos grandes génios do século XX.

 

13 - Quais são os três livros que considera geniais na área da economia e gestão nos últimos 50 anos?

Capitalismo e Liberdade de Milton Friedman. Pensar, Depressa e Devagar de Daniel Khaneman. Interest and Prices de Michael Woodford.

 

14 - Que livros recomenda para quem quer melhor compreender a situação económica atual?

O meu [sorrisos].

Salvo indicação em contrário, as promoções apresentadas são válidas para o dia 27-11-2020.
Iniciativa promocional nos termos do regime jurídico do preço fixo do livro, de acordo com a alínea b) do n.º 2 do artigo 14.º da Lei do Preço Fixo do Livro (LPFL).

CEO Store

Quem somos Contactos

Redes Sociais

LinkedIn

Newsletter

Ao aceitar está a concordar com a utilização dos seus dados pessoais para receber, por email e/ou SMS, comunicações relativas a notícias, campanhas, produtos e eventos organizados pela CEO Store, nos termos da nossa Política de Privacidade que declara ter consultado previamente.